Ordem e Disciplina:
A trajetória de 40 anos da professora Terezinha dedicados à Educação
Todas as pessoas que passaram pela sala de aula já tiveram um professor ou professora linha dura, de postura rigorosa, que exigia ordem e disciplina de seus alunos. Este era justamente o perfil da Professora Terezinha Pinheiro, temida por uns e respeitada por todos, não à toa ganhou de forma carinhosa de seus alunos o apelido de “Sargento”. Com ela, não existia esse negócio de “decoreba” e, tampouco o “Copia e Cola”, o aluno aprendia a interpretar e formar a sua resposta.
Mas antes de nos aprofundarmos na didática, é preciso conhecermos a origem da segunda personalidade da série “Especial Professores”. Terezinha é a filha mais velha de uma família de seis irmãos, sendo cinco mulheres. Nasceu no município de Vargem e frequentou a Escola Isolada até a Terceira Série Primária. Filha de comerciantes, Terezinha sempre foi muito cobrada nos estudos pelo seu pai, homem de muita sabedoria, mas muito exigente, já a sua mãe, também acompanhava os estudos da filha e chegou a ser professora substituta em determinado período de sua vida.
A quarta série já foi cursada num Colégio Interno no município de Abdon Batista e foi ali que despertou a vocação de ser professora. Quando chegou no “colégio das irmãs”, cada uma das professoras tinha uma interna como auxiliar e Terezinha foi escolhida para ser auxiliar da professora da 1ª Série. Ela diz lembrar de detalhes daquela professora, muito competente por sinal, que entregava seus alunos lendo e escrevendo, porém a tarefa de alfabetizar não agradava Terezinha, tinha dúvidas se seria capaz de assumir tamanha responsabilidade, mesmo assim não mudou de plano, vindo a lecionar por 40 anos, como veremos a seguir na entrevista concedida ao Jornal O Celeiro.
- Como foram as suas primeiras experiências comandando uma sala de aula?
Vim concluir o profissionalizante (2º Grau), bem como o Curso de Magistério no Colégio Auxiliadora. Antes de me formar eu fui convidada a trabalhar numa Escola isolada próxima do Rio Canoas, na localidade de Goiabeira. Saia do Colégio ao meio dia sem almoçar, pegava o ônibus e ia para esta escola trabalhar com as quatro turmas, voltava de lá com o único transporte que tinha e chegava em casa por volta das 11 horas da noite. Até então só tinha feito estágio na cidade e lá, era uma licença, fiquei por 30 dias e comecei a entender o que era ser professor.
No ano seguinte, em 1983, trabalhei numa Escola Isolada, no interior, fiquei por três dias na casa da família, até que surgiu a vaga na Escola do Major Cipriano no Zortea, onde de fato comecei a minha carreira como professora de História. Lá eu tive que morar, com o filho pequeno, ficávamos a semana toda e retornávamos para cá somente aos finais de semana.
Trabalhei por muitos anos dentro desta escola, fiz um bom trabalho dentro da disciplina, tive o apoio da direção da escola que sempre foi muito presente e isso faz a diferença.
- Como foi o seu primeiro dia como professora?
O primeiro dia de aula, que marca muito para gente, está relacionado à questão de como vamos chegar na escola. Você precisa ter uma atividade preparada, conteúdo que você domina e a disciplina. Isso nunca me faltou.
- Como foi a sua preparação para lecionar a disciplina de História?
Eu precisei ir até a biblioteca atrás de mais conteúdo, porque tínhamos o planejamento, mas para mim não era o suficiente. Sempre fui contra o Copiar e Colar, escrever somente o que estava dito nos livros, por isso sempre procurei me aprofundar na leitura, para aprimorar o meu conhecimento e ter a capacidade de transmiti-lo.
- De onde surgiu o Apelido de Sargento?
Anos depois fiz o concurso, porém não tinha mais vaga para assumir do 1º ao 4º ano. Aguardei, depois surgiu a oportunidade de trabalhar com as turmas de 4ª Série, lecionei também Educação Física no antigo Cipe (atual Colégio Henrique Rupp Jr.), meus alunos da época diziam, “hoje tem aula com o Sargento”. Sempre fui muito exigente na questão da disciplina e do aprender.
Os alunos os quais eu comecei eram dedicadíssimos, na disciplina de História eles faziam questão de pesquisar e depois vir com as perguntas para testar o conhecimento da professora. Hoje, os alunos continuam os mesmos, porém, mais avançados na questão da tecnologia, das informações. Ainda existem alunos que vão atrás, mas não é a mesma dedicação, pois naquela época os alunos eram muito cobrados pelos pais, para tirarem notas boas e crescerem como bons cidadãos.
- Quais outras experiências a professora teve nestes 40 anos dedicados à educação?
Depois de alguns anos assumi a Direção da Escola em Zortea, onde fiquei três anos e meio na função, posteriormente fiquei responsável pela Secretaria da Escola Paulo Blasi. Também trabalhei em cursos de aceleração de estudo, além de outros projetos dentro da Educação e terminei lecionando para os cursos de Magistério.
- Quais seriam as principais mudanças que faria na área da Educação?
A Educação está passando por grandes mudanças, grandes dificuldades e grandes desafios. Me refiro aos profissionais, aos conteúdos, aos sistemas, ao ritmo de Ensino Médio Moderno, que não profissionaliza e não prepara o aluno. Nós, enquanto educadores, precisamos ter uma visão ampliada de educação. Não se limita a ensinar, devemos formar cidadãos críticos e profissionais com interesse em trabalhar, cientes que estão competindo com alguém, por isso a importância de não ficarem para trás.
Se hoje eu tivesse o poder de mudar para o profissionalizante seria maravilhoso, porque a gente sofre junto com eles ao chegarem no último ano do Ensino Médio sem saber o que farão.
Com relação aos profissionais da área, acredito que ainda está faltando a valorização por parte do governo e a cobrança deles mesmos em lutar pela sua classe. É preciso lutar pela categoria, pela educação de qualidade, se você é professor é necessário vestir a camisa, lutar pela liberdade e fazer acontecer.
*Reportagem publicada no Jornal ‘O Celeiro’, Edição 1752 de 27 de outubro de 2022.


