Especial Agosto Lilás: Acolhimento e escuta: a porta de entrada para romper o ciclo da violência psicológica

Seguindo série especial sobre a Campanha Agosto Lilás, que tem como objetivo fortalecer o Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, ouvimos:

Coordenadora do Setor de Psicologia das Unidades Básicas de Saúde de Campos Novos, a psicóloga Susane Dias de Deus (CRP 12/03077) atua diretamente na linha de frente do acolhimento a mulheres vítimas de violência.

Com larga experiência na área e um trabalho fundamentado na escuta, na empatia e no cuidado, ela participa da nossa série especial do Jornal O Celeiro sobre o Agosto Lilás, mês de conscientização pelo fim da violência contra a mulher.

Nesta entrevista, Susane compartilha como é o trabalho da Atenção Básica no enfrentamento à violência psicológica, uma das formas mais silenciosas e devastadoras de abuso.

O sofrimento emocional nem sempre chega com um grito. Muitas vezes, entra silenciosamente pela porta de uma Unidade Básica de Saúde, disfarçado de insônia, crises de choro ou dores no corpo. É assim que, no dia a dia das UBSs de Campos Novos, a violência psicológica contra mulheres se revela de forma sutil, mas profundamente dolorosa.

Segundo Susane, o acolhimento às mulheres vítimas de violência começa já na porta de entrada do SUS.

“Quando a mulher chega com sinais de sofrimento emocional ou relata situações de violência, as profissionais psicólogas fazem a escuta qualificada, com sigilo, empatia e sem julgamentos”, explica.

Esse primeiro contato é essencial para identificar o tipo de violência sofrida e oferecer os encaminhamentos adequados. O foco é sempre o suporte integral, respeitando o tempo e as necessidades de cada mulher.

SINAIS QUE NÃO PODEM SER IGNORADOS

A violência psicológica nem sempre é reconhecida de imediato. Muitas mulheres procuram as unidades com sintomas como ansiedade, insônia, dores psicossomáticas ou depressão, sem fazer a conexão entre esses sinais e o que vivem em casa.

“Em alguns casos, o sofrimento está diretamente relacionado a uma situação de violência, mas a paciente ainda não reconhece isso”, pontua Susane. Por isso, a escuta atenta e um olhar sensível fazem toda a diferença.

Comportamentos como medo constante, isolamento, baixa autoestima e dificuldade em tomar decisões simples são sinais indiretos que podem indicar que algo está errado.

A violência psicológica, destaca a psicóloga, “vai minando a saúde emocional de forma silenciosa”, tornando ainda mais difícil para a vítima identificar o abuso.

O QUE CARACTERIZA A VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA

Ao contrário do que muitos pensam, a violência doméstica não se resume a agressões físicas.

A violência psicológica se dá através de palavras, controle, humilhações, intimidações e manipulação emocional. Frases como “Você não serve para nada” ou “Sem mim, você não é ninguém” são exemplos claros desse tipo de agressão, que muitas vezes acontece sem gritos ou ameaças explícitas, mas com profundos efeitos na autoestima da mulher.

O agressor, segundo a profissional, tende a controlar os mínimos aspectos da vida da vítima desde as roupas que ela veste até com quem se relaciona. Pode ainda tentar isolá-la da família e desvalorizar suas opiniões, sempre sob o pretexto de “preocupação” ou “ciúmes”.

“Na verdade, é controle. Isso destrói lentamente a autonomia e a identidade da mulher”, afirma.

QUANDO A UBS SE TORNA LUGAR DE TRANSFORMAÇÃO

Identificar a violência e oferecer suporte exige vínculo. A escuta empática é fundamental. Quando a mulher percebe que está sendo ouvida sem julgamento, ela se sente segura para falar mais.

A partir dessa confiança, é possível ajudá-la a refletir sobre sua realidade e entender os mecanismos do abuso, inclusive explicando o que diz a Lei Maria da Penha sobre violência psicológica.

O trabalho da equipe de saúde não termina no primeiro acolhimento. Segundo a psicóloga, a paciente passa a receber acompanhamento psicológico, com foco na reconstrução da autoestima e da capacidade de enfrentamento.

“Em situações mais complexas, também podemos encaminhar para o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), ou para o CREAS (Centro de Referência de Assistência Social), onde há suporte psicossocial. O acompanhamento respeita a singularidade de cada caso”, completa.

A VIOLÊNCIA INVISÍVEL E O DESAFIO DA DENÚNCIA

Por não deixar marcas visíveis, a violência psicológica é uma das mais difíceis de serem reconhecidas e denunciadas.

“Muitas vezes a própria vítima minimiza ou naturaliza o que está vivendo. Além disso, existe o medo da exposição, da retaliação ou de não ser levada a sério”, explica Susane.

É justamente por isso que o trabalho preventivo da Atenção Básica é tão importante. Como estão próximos da comunidade, os profissionais da saúde podem criar vínculos de confiança e disseminar informação, facilitando que essas mulheres encontrem força para dar o primeiro passo.

A REDE DE APOIO EM CAMPOS NOVOS

As mulheres que vivem situações de violência podem procurar ajuda em diversos pontos da rede de apoio no município. Elas podem buscar o Posto de Saúde do seu bairro, o CRAS, o CREAS, o CAPS, a DPCAMI ou acionar o Disque 180.

Muitas vezes, o primeiro passo é simplesmente conversar com o agente de saúde ou com a enfermeira da UBS. A partir desse contato inicial, a equipe faz os encaminhamentos necessários para garantir segurança e cuidado.

UM CHAMADO À CORAGEM

Para quem ainda vive essa realidade e não sabe como pedir ajuda, a mensagem de Susane é direta e acolhedora:

“Violência psicológica também é violência, e você não precisa passar por isso sozinha. Há pessoas e serviços preparados para te ouvir e te ajudar. Seu sofrimento é legítimo, sua dor importa”.

Ela reforça que o Setor de Psicologia de Campos Novos está de portas abertas para acolher com empatia, sigilo e respeito.

“Procurar ajuda é um gesto de coragem e pode ser o início de uma nova vida com mais liberdade, saúde e dignidade”, finaliza.

Se você sente medo, se sente diminuída, confusa ou sem forças, saiba: isso não é normal e não é culpa sua. A violência psicológica é real e séria. Mas você não está sozinha. As Unidades de Saúde estão prontas para te ouvir e caminhar ao seu lado, no seu tempo, com cuidado e proteção. Você tem valor, tem voz e tem direito a viver em paz.

*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1891 de 14 de agosto de 2025.

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