Tarifaço norte-americano pode afetar exportações em Campos Novos?

Queda nas vendas para os Estados Unidos e recuo nas exportações de madeira expõem os impactos locais da nova política tarifária norte-americana.

Bentes aponta que a retração da madeira serrada ajuda a explicar o efeito mais expressivo do tarifaço sobre a economia local
Caleb Bentes, cientista político e diretor da D’América

Uma decisão tomada em Washington, Estados Unidos, já começa a afetar o município de Campos Novos. As novas tarifas impostas pelo governo norte-americano aos produtos brasileiros atingiram parte das exportações locais e, segundo análise do cientista político e diretor da D’América, Caleb Bentes, ajudaram a provocar uma queda de 59,3% nas vendas de Campos Novos para o mercado norte-americano no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025.

O impacto também aparece no resultado geral da balança comercial do município. De acordo com os dados apresentados no artigo, o total exportado por Campos Novos recuou 17,5% no período. O setor mais atingido foi o de madeira serrada, segundo produto da pauta de exportações local, que registrou queda de 51,6% nas vendas.

MADEIRA É A MAIS AFETADA

A madeira está entre os produtos brasileiros que ficaram expostos às novas sobretaxas. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as medidas anunciadas pelos Estados Unidos em julho estabeleceram sobretaxas adicionais de 25% e 12,5% sobre parcelas das importações brasileiras. Quando as duas incidirem sobre um mesmo produto, a cobrança adicional pode chegar a 37,5%. A madeira aparece entre os produtos sujeitos às duas medidas.

No caso específico de Campos Novos, Bentes aponta que a retração da madeira serrada ajuda a explicar o efeito mais expressivo do tarifaço sobre a economia local. No Brasil, as exportações monitoradas do setor de madeira teriam recuado 33% na comparação entre os primeiros semestres de 2025 e 2026, conforme os dados utilizados na análise.

ECONOMIA VOLTADA AO EXTERIOR

Apesar do impacto concentrado no mercado norte-americano, Campos Novos possui uma carteira de exportações diversificada. O município vende para cerca de 20 destinos em quatro continentes. O Chile concentra aproximadamente 63% das vendas, enquanto a lista de parceiros inclui Argentina, Uruguai, Venezuela, Senegal, Espanha, Turquia, Arábia Saudita, Guatemala, Bangladesh e Vietnã.

Para Bentes, essa diversidade reduz a exposição a choques generalizados, mas não impede os efeitos de uma medida direcionada a determinados produtos e mercados. No caso de Campos Novos, Estados Unidos e madeira estavam justamente entre os pontos mais vulneráveis ao novo cenário tarifário.

CRESCIMENTO NAS EXPORTAÇÕES

O recuo atual contrasta com o avanço registrado ao longo da última década. Entre 2016 e 2025, as exportações de Campos Novos passaram de US$ 25,8 milhões para quase US$ 69 milhões, crescimento de 167,75%, segundo os números apresentados na análise de Bentes.

O cenário coloca em perspectiva a importância que o comércio exterior ganhou para a economia local. A expansão da pauta e dos destinos comerciais foi construída ao longo dos anos, mas também aumenta a exposição do município às mudanças no ambiente internacional.

OUTRO CENÁRIO

O artigo usa Videira como comparação para avaliar o peso do fator geopolítico. Os dois municípios possuem semelhanças na estrutura produtiva, com forte presença da carne suína nas exportações. No entanto, enquanto Campos Novos registrou retração, Videira avançou 27,4% nas exportações no primeiro semestre de 2026 e atingiu recorde para o período.

Uma diferença apontada é o destino das vendas. Videira concentra 61,9% das exportações em um único país, o Japão. Ainda assim, o mercado asiático de proteína não está diretamente no centro da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos e apresentou crescimento no período analisado.

Para Bentes, a comparação não significa que o tarifaço seja responsável por todos os movimentos registrados nas duas economias.

A desaceleração do saldo de empregos, por exemplo, aparece em ambos os municípios e indica a existência de outros fatores econômicos. O contraste, porém, ajuda a dimensionar como decisões tomadas no cenário internacional podem produzir efeitos diferentes conforme os mercados e produtos aos quais cada município está exposto.

GEOPOLÍTICA

As medidas norte-americanas foram adotadas com base em investigações da Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos. Segundo o representante comercial norte-americano, a investigação apontou práticas brasileiras consideradas prejudiciais ao comércio dos EUA, incluindo questões relacionadas a comércio digital, pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, etanol e desmatamento.

O governo brasileiro, por sua vez, considera as medidas injustificadas e acionou o mecanismo de consultas da Organização Mundial do Comércio contra as tarifas. É nesse contexto que o impacto sobre Campos Novos ganha uma dimensão que ultrapassa os números da balança comercial.

A análise aponta que, em um cenário no qual tarifas e comércio passam a ser utilizados como instrumentos de pressão política, municípios exportadores precisam considerar não apenas custos, produtividade e demanda, mas também os riscos e relações entre grandes potências.

*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1942 de 20 de agosto de 2026.

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