Agosto Lilás: Entre ameaças e agressões, violência doméstica continua fazendo vítimas

344 ocorrências foram registradas pela Polícia Militar entre 2024 e julho de 2026; média é de um caso a cada três dias.

Em 2024, foram 142 ocorrências relacionadas a esse tipo de violência, atendidas pela Polícia Militar. No ano de 2025, foram contabilizadas 147 ocorrências, representando um aumento de aproximadamente 3,5% em comparação com o ano anterior. Já em 2026, entre os meses de janeiro e julho, foram registradas 55 ocorrências.

Os registros de violência doméstica são motivos de preocupação em Campos Novos. Os números não mentem, a violência continua presente na vida de muitas mulheres no município.

Fernanda Silva, Delegada na
Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (DPCAMI)

Os números deste ano ainda não estão consolidados e, mantida a média atual até dezembro, a projeção indica uma possível redução de aproximadamente 35% em relação ao ano passado.

Mas, mais do que apontar uma alta ou uma redução nos registros, os números mostram que a violência doméstica permanece como uma realidade que exige atenção. No mesmo período, 96 autores foram presos em flagrante em ocorrências envolvendo a Lei Maria da Penha, o equivalente a aproximadamente 28% dos atendimentos realizados pela PM.

Na Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (DPCAMI) de Campos Novos, os casos mais recorrentes envolvem ameaças e perseguições, geralmente relacionadas ao inconformismo com o fim de um relacionamento. De acordo com a delegada Fernanda Silva, os casos envolvendo violência física são menos comuns na unidade.

Para a delegada, também não há uma alteração significativa no padrão de criminalidade observado nos últimos meses. O que permanece, entretanto, é uma realidade marcada por relações de poder e controle, em que a liberdade de escolha da mulher ainda é desrespeitada.

Para algumas mulheres, o fim de um relacionamento pode ser o início de uma sequência de ameaças, perseguições e tentativas de controle. Em alguns casos, tentativa de homicídio.

A dificuldade em aceitar a decisão da mulher pode aparecer de diferentes formas: mensagens insistentes, perseguição, ameaças, controle da rotina e outras atitudes que ultrapassam os limites de uma relação e passam a configurar violência.

Segundo a delegada Fernanda, essa cultura de controle precisa ser transformada.

A Lei Maria da Penha foi criada para oferecer mecanismos de proteção às mulheres vítimas de violência baseada em uma relação de poder e dominação. Essa cultura vem mudando, mas ainda persiste em situações nas quais a mulher é tratada como se não tivesse direito de decidir sobre a própria vida.

PREVENÇÃO É PROTEÇÃO

O Agosto Lilás surge com o objetivo de conscientizar sobre a violência contra a mulher e fortalecer o enfrentamento, mas também trabalha a prevenção. A mudança, segundo Fernanda, passa pela construção de uma cultura de respeito e igualdade. E esse processo precisa começar cedo.

A proposta é levar o debate para além das situações em que a violência já aconteceu, trabalhando a conscientização para que comportamentos abusivos sejam reconhecidos e combatidos antes que se transformem em crimes mais graves.

As Delegacias Especializadas também têm o papel de oferecer acolhimento e orientação às mulheres que procuram ajuda. Na DPCAMI de Campos Novos, a vítima pode buscar informações sobre seus direitos e sobre as medidas de proteção disponíveis. O atendimento considera as particularidades de cada caso e pode envolver orientações tanto na esfera criminal quanto em questões relacionadas à proteção pessoal, dos filhos e de direitos sobre bens, além do encaminhamento para outros órgãos quando necessário.

A violência doméstica é uma situação que envolve vínculos familiares e afetivos e, por isso, cada caso possui suas particularidades. Para a Polícia Civil, é importante que a mulher tenha acesso às informações necessárias para tomar suas próprias decisões e, quando necessário, contar com o suporte das medidas legais disponíveis.

A Polícia Militar também reforça a importância da denúncia. Em situações de emergência, a orientação é acionar o 190 ou utilizar o aplicativo PMSC Cidadão. Denúncias, orientações e informações podem ser obtidas pelo Ligue 180.

Os 344 registros contabilizados em pouco mais de dois anos representam muito mais do que números. São ocorrências que chegaram às autoridades porque, em algum momento, uma situação ultrapassou os limites e exigiu intervenção. E enquanto ameaças, perseguições e outras formas de violência continuarem interferindo na liberdade e nas escolhas das mulheres, o enfrentamento precisa continuar.

O CICLO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E O PERFIL DAS VÍTIMAS EM CAMPOS NOVOS

Na esfera investigativa, a Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (DPCAMI) formalizou 198 casos de violência doméstica apenas em 2025, e outros 99 nos primeiros meses de 2026.

O feminicídio vitimou duas mulheres em 2025, sem registros consumados em 2026 até o momento.
Dados da DPCAMI trazem um raio-x do comportamento abusivo no município.

A violência tem dia marcado: 18,33% das agressões ocorrem aos domingos. Como reflexo imediato, o dia seguinte se torna o de maior busca por socorro, com as segundas-feiras concentrando 34,41% dos pedidos de Medida Protetiva de Urgência (MPU).

O perfil de quem sofre a violência também escancara a vulnerabilidade social e econômica. A maioria das vítimas: Possui ensino fundamental incompleto (44,45%), está na faixa etária de 25 a 34 anos (25,85%) e se declara “do lar” (21,56%).

*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1941 de 13 de agosto de 2026.

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