Muralista conta que encontrou na arte de rua oportunidade de crescimento e profissionalização

Grafite tem conquistado espaço e admiradores em Campos Novos.

“Vandalismo para uns sempre foi arte pra mim” replica o muralista e artista de rua, Rafael Lucas Pereira ao falar de sua paixão pelo grafite, parafraseando a música do cantor Marcelo D2. Conhecido em Campos Novos por sua autenticidade e paixão pelo grafite, Rafael deixou sua marca em vários muros da cidade. Apesar de viver um bom momento profissional, com projetos a médio e longo prazo, como a criação de uma escola de artes, o profissional diz que passou por momentos difíceis e que durante muito tempo foi julgado por seguir um estilo diferente.

Ainda criança, Rafael era apaixonado por desenho, mas nunca imaginou que iria seguir nesse caminho. O conhecimento sobre o grafite foi através da televisão. Apenas no ano 2000, quando se mudou para Lages, ele viu ao vivo e a cores um desenho em grafite. Sem muito conhecimento e incentivo, Rafael tentou praticar o grafite por conta própria, mas acabou sendo mal interpretado. “Eu era mal visto na cidade por conta de fazer o grafite de forma ilegal, mas eu fazia porque não tinha informação. Eu não sabia como proceder, não tinha orientação. Eu fazia por impulso, não era uma atitude rebelde, mas por desejo e amor. Eu nunca tive incentivo, desde a época da escola foi difícil. Eu não me encaixava em outras áreas. A minha vocação para o desenho fazia com que os professores me indicassem o designer, a arquitetura, mas para mim era algo mecânico que fugia do lado artístico” relembra.

Após morar em algumas cidades catarinenses, incluindo Campos Novos, e já maior de idade, Rafael decidiu se mudar para a capital do estado. Foi lá que ele ficou frente a frente com o grafite real e mergulhou nessa área ampliando seu conhecimento técnico. “Quando eu mudei para Florianópolis eu tive contato com o real grafite e participei dos eventos, conheci pessoas que trabalhavam apenas com isso. Essa aproximação me fez ver que eu poderia me profissionalizar nesta área. Mas tudo aconteceu a passos lentos”, declarou. Porém, com o início da pandemia, ele precisou voltar para Campos Novos. Que caminho buscar a partir de então? “Quando cheguei aqui resolvi seguir meu coração e fui atrás de um muro para pintar”, conta.

Embora o grafite não fosse uma atividade comum em Campos Novos, com a bagagem artística adquirida, ele se determinou a lutar pelo que acredita. O resultado foi positivo, e dessa vez conseguiu o apoio que precisava para seguir a diante. “Campos Novos abraçou meu trabalho. Eu queria fazer algo que trouxesse a cultura do grafite para cá. Eu organizei um festival e convidei alguns artistas da capital. Eu tinha a ideia de fazer não apenas com o grafite, mas trazer os quatro pilares desse movimento, que é a música, a dança, o grafite e o skate. Eu me juntei com uma amiga, que é professora de Soulstreet, para organizar o evento. Foi a partir deste momento que começou a surgir outros trabalhos. Tivemos apoio da administração. Foi um momento especial”.

Após muitos aprendizados, hoje, Rafael está comprometido em ajudar outros jovens que tem vocação e preferência pela arte e pelo desenho. Ele sabe que, assim como ele, há muitas crianças e adolescentes que estão perdidos sobre o que fazer e que possuem sonhos que vão na contra mão das profissões mais tradicionais. Seu desejo é ajudar esses jovens. “Eu venho de uma adolescência rebelde. Havia uma visão negativa sobre o meu trabalho e a associação ao vandalismo. Ouvi muitas críticas, mas elas me impulsionaram a seguir em frente. Eu tenho outra visão de mundo. tenho a noção de quanto o grafite pode ser construtivo na vida do adolescente. Já vi amigos que saíram da depressão e encontraram refúgio no grafite”, conta.

Qual a ideia do Rafael para ajudar outros jovens? Em parceria com a professora Monica de Mattia, o muralista idealizou o projeto para criação de uma escola de artes em Campos Novos. “Nós juntamos nossas ideias e começamos o projeto, levamos as autoridades e foi visto com bons olhos. Eu estou preparado para levar o conhecimento que tenho para ajudar os mais jovens. Eu aprendi na vontade e quero repassar isso para os alunos. Queremos quebrar a associação que as pessoas fazem do grafite em relação a pichação. Ao se deparar com o grafite as pessoas percebem que é uma forma de arte e cultura. O grafite sempre traz uma visão e carrega um significado. Levantamos muitas questões ambientais. O grafite fala por si só, sem explicações, apenas através do desenho. A prefeitura abraçou o projeto e vai ajudar no que for preciso. Faltam alguns detalhes para afinar o projeto”, comemorou Rafael.

Este projeto é muito significativo para o muralista, pois além de oferecer um encaminhamento para os mais jovens, ele também pode ser uma porta que se abre para tirar os mais jovens do mundo das drogas. “Às vezes, a falta de oportunidade e a frustração que muitos encontram os leva aos caminhos das drogas. Eu tive alguns amigos no passado que por não ter incentivo, acabaram indo para o mundo das drogas e não conseguiram sair. Isso é muito triste. Queremos dar mais oportunidades para eles e a mensagem que eu tenho para deixar é: Se você tem um sonho vá buscar. Passei por muita coisa, mas consegui realizar meu sonho. Vou usar todo o conhecimento que adquiri para motivar os mais jovens”, finaliza Rafael.

*Reportagem publicada no jornal ‘O Celeiro’, Edição 1723 de 07 de abril de 2022.

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